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Depois do tédio

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Tédio nosso de cada domingo, que vem e se vai de mansinho escorregando por entre a vontade danada de algo diferente no intervalo dessas trocas frequentes de canal ou, quem sabe até, no breve instante em que fechamos os olhos pra voltar lá atrás, mesmo sem querer. Tédio [para-que-te-quero] que teima em ser só meu. E aí eu corro pro bloco de notas e deixo escorrer pelas pontas dos dedos alguma coisa quente que passeia dentro de mim. Alguma coisa que nem eu mesma sei o que é. O céu rosa alaranjado faz um véu sobre o brilho tímido das estrelas que, aqui e ali, disputam uma vez no espetáculo do cair da noite; e de repente a chuva vai caindo bem de leve, sem pressa e ritmada num passo tranquilo de quem não quer ir, não agora. O vento vai soprando devagar fazendo dança nos fios de cabelo que caem desarrumados do meu coque improvisado e, brincando atrás da minha nuca, vai levando embora esse medo, todo meu, de pensar. No apartamento do lado, meu vizinho arrisca umas melodias doces no v...

Bagunça

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“ — Que mulher doida, meu Deus!” Lembro que tu disse isso entre risos, enquanto eu fiquei muda do outro lado da linha sem saber ao certo qual a reação mais certa pra uma afirmação tão cheia de graça e de verdade. Uns seis segundos depois dei uma risadinha meio insegura de quem não sabe se o que ouviu foi bom, ruim, razoável, péssimo, etc... Segundo o que tu diz, eu sou chata, meio pessimista e uma doida da imaginação muito fértil. Olha, faz uns três dias que me pergunto se sou tudo isso mesmo, se você não se precipitou em fazer um retrato meu em tão pouco tempo ou se, putz , como você pode ser tão bom em traçar perfis em apenas uma semana de convivência? Sei lá, na verdade eu tenho medo dessas sensações que tu me provoca, tenho medo desse teu jeito estranho que tu teima em dizer que não tem, mas tem, eu sei. Sou bem melhor nesse troço de traçar perfis do que você. Pra variar, passei o dia pensando na última vez que conversamos. É como tu disse, eu tenho o mundo inteiro na mi...

Eu nunca disse que queria me encontrar

Um oi e eu sigo rindo pro vento e pra qualquer desconhecido que passar. Um oi , só, e eu leio teu pensamento enquanto teus olhos me cercam naquele velho e amigo íntimo beco sem saída. Você e suas armadilhas, você e seus cílios compridos, você e sua mania de me prender como se eu não tivesse como fugir, como se eu não quisesse fugir. A essa altura da brincadeira já não sei mais quem está em vantagem. Não sei, muito menos, se meus truques funcionaram. Não sei se soube jogar bem teu jogo e também não sei em que ponto de tudo a gente continuou brincando sem regras, antes tão importantes. Não sei até onde você me faz bem ou mal. Não sei mais o que você me provoca, fora aquela vontadezinha de não ir embora e ficar lá pra sempre do teu lado. Porque o melhor lugar do mundo ainda é quietinha do seu lado, sentindo seus dedos bagunçarem meus cabelos. A melhor sensação do mundo ainda é deitar sobre você e sentir os pêlos do teu peito brincarem com a pele sensível do meu rosto, ainda é senti...

Ela só é feliz no sol

Se chove lá fora, o mundo é pequeno demais debaixo do seu guarda-chuva. Porque, se o tempo fecha e o céu faz cara feia, o coração dela fica miúdo e se encolhe todo por dentro. Na sombra das nuvens escuras, ela se desfaz dos seus medos pra ocupar seus lugares e se enrosca no labirinto turvo que são suas doces e claras lembranças. Ela é triste quando as gotas do céu batizam sua dor. Se os trovões gritam pro mundo sua fragilidade, ela se esconde nas cobertas feito criança de três anos. Se chove e escurece, ela fica triste. Seus olhos escuros desafiam o breu da noite. Qual deles esconde mais mistérios? É dela o frio que pula a janela e faz cócegas nas cortinas. É dela o brilho escondido das estrelas por entre o nublar do céu da noite antecipada. É só dela o quarto fechado e as recordações presas a sete chaves dentro da gaveta bem lá no fundo do coração. Ela é leve feito pena. Ela é feito balão ao encontro do infinito, quando sobe feliz-feliz céu afora à procura do que aqui embaixo n...

Bobice...

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— Que horas são? — Oi? — Que horas são? — Nem tão cedo pra você ir embora, nem tão tarde pra decidir ficar. E aí? — Ah, para. Suas piadinhas não ficam bem de café da manhã. — Tudo bem, zangadinha. — Sério, que horas são? — Oito da manhã. Bom pra você? — Há quanto tempo você ‘tá’ aí? — Como assim? — Há quanto tempo você ‘tá‘ acordado? — Tempo suficiente pra perceber que você fala algumas coisinhas enquanto dorme e sorri enquanto sonha. — Droga! — Que foi? — Nada... — Hum. — Desculpa por tudo. — Tudo o quê? — Tudo! Tudo que eu fiz e, principalmente, o que não fiz nos últimos tempos. Eu sei que fui muito... ah, sei lá... Desculpa! — Ah... Não, não chora, amor! Nós fomos dois idiotas. Eu fui o mais idiota. Assim fica melhor? — Não, você não foi. — Fui, você sabe. — Não! — Eu te amo. — Eu também, mas... — Mas? — Muita coisa mudou desde que tudo perdeu o rumo e fomos para lados totalmente opostos. — Eu sei. Mas tudo pode mudar de nov...